segunda-feira, 12 de junho de 2017

video Para FETO

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Roteiro Para FETO

O MITO DAS MULHERES QUE VIRAVAM BORBOLETAS

CENA 01
Atrizes, nos cantos do palco, não iluminadas.
Música: percussão, enquanto o público entra.
Martha está no centro do palco, até que a percussão para e ela começa:
MARTHA: Há um instante em que uma voz nos diz que chegou o momento de uma grande metamorfose… A alma… é uma borboleta.

Volta o som da percussão. Martha começa uma movimentação ainda não definida e começa o texto. As meninas aparecem, uma por uma, em focos de luz.

MARTHA: O Estado brasileiro e seus aparelhos de repressão viam as mulheres como tolas, bobas e incapazes de se incorporar à luta política naquele momento
Elas estiveram em todas as frentes de resistência. Ousadas demais foram silenciadas. Pela democracia nenhum filho desse país fugirá à luta

Martha se ajoelha começa a arrumar seus elementos de projeção para vontar a história
Muda a percussão, pensar na movimentação com os instrumentos

LUIZA: Uma mulher se tece em cardos, cordas, cordeiras e aspirações. Assim é, assim quer o dono da noite, mas uma mulher é capaz de paz e de guerra.
CAMILA: Uma mulher desfaz-se de cordas e coisas mais graves e se faz em ave e voa e vai e voa acima de si
IZABELLE: Para o sol, e livre leve livre, isenta dos nossos vossos estreitos compromissos, ela fere a noite pois prefere o sol.
CINTIA: A gente devia  ser como borboletas,e enfrentar a metamorfose da vida, para s8ermos livres.

Todas vão para o centro em volta da cintia, enquanto dançam e cantam.

TAINÁ: Os que vão lutar te saúdam! O povo, o teu povo te saúda, e inscreve no peito, em secreta caligrafia, o teu nome, que é VIVO, e SEMPRE

Percussão para. Uma por uma, as atrizes se posicionam em frente à Martha e Cintia, enquanto relembram as mulheres da história.

IZABELLE: Anatália de Souza, Foi encontrada morta com
CAMILA: marcas de enforcamento e de queimaduras na região pubiana. RECIFE - 1973.
CINTIA: Dilma Vana Roussef. Foi torturada nos porões da ditadura em Minas, São Paulo e Rio de Janeiro. Levou choques, socos, palmatórias e insultos. Estes, ocorrem até hoje.
LUIZA: Claudia da Silva Ferreira, Baleada em meio a uma operação da polícia militar, foi arrastada
TAINA: por 250 metros de asfalto, pendurada ao porta-malas do carro, sem que os policiais dessem atenção. RIO DE JANEIRO – 2014
TODAS: Mãe,

Martha surge do meio das meninas e fala:

MARTHA:  se alguma coisa acontecer comigo, uma companheira dará notícias a vocês
PROJEÇÃO: Em 2015 foram  63.090 denuncias de violência contra a mulher E escrever: Não há numeros oficiais sobre a morte de mulheres na ditadura militar
CENA 2
Projeção: Cortes na transparência

LUIZA:  As descargas e a água, as descargas e a água, as descargas e a água.

Pausa. Barulhos de chaves e passos.

LUIZA: quando você começa a se recompor eles começam a tortura de novo. Havia uma mudança no tom das equipes eram 3 e iam piorando. Me tratavam de puta ordinária me tratavam como uma pessoa completamente desumana. Eu também os enfrentei muito. Com certa tranquilidade, eu dizia que eles eram anormais que faziam parte de uma engrenagem podre. Eu me sentia fortalecida com isso, me achava com a moral mais alta
CAMILA:   As vezes eu me pergunto… Porque que tem que ser assim?  Porque é que uns são tão cruéis com os outros? Eu sei o tanto que é difícil amar, mas eu também sei que pode ser muito fácil.
LUIZA: Ele me chamou pra dar a volta na igreja. Ele disse que ia me ajudar a olhar por cima do muro. Eu confiei nele, eu dei a mão pra ele. Mas ele me agarrou e disse que eu não ia conseguir sair porque ele era homem, e eu era mulher. Mas eu consegui sair e fui correndo para a única referência de força que eu tinha, era minha mãe.
CAMILA: Eu sei que você tem muito ai dentro. Eu tenho certeza que vocês carregam medo também. Pode não ser o mesmo que o meu, mas todos nós sabemos qual a sensação de apenas sentir. Eu sei que eu posso lutar com você… Mas será que você pode lutar comigo?
LUIZA: O verdadeiro medo é o que se sente no intervalo das sessões de tortura, quando a gente não sabe se vai começar, ou quando vai começar, mas a gente está aqui esperando. Um montão de merda, ossos, dor e medo.Era assim que a gente se sentia, era assim que eles queriam que a gente se sentisse. Havia um desprezo da parte deles. Junto com a ideologia vinha todo o peso de ser mulher, era como se eu tivesse extrapolado os limites da cozinha. Eles tinham sido m ódio de mim porque falavam que eu era macho de aguentar, mas não, eu fui mulher de aguentar.


CENA 3

Todas: Eles acabaram com ela

Em tempos e ritmos alternados todas falam. Cintia ouve e reage. Até que todas param.

Cintia: Eu já não aguento mais ficar nessa casa.
As roupas dela estão todas aí, intactas..
eu poderia perder o que fosse nessa vida, dinheiro, memória, sono.. só não podia perder minhas filhas, e logo Nilda meu Deus do Céu?!
Desde o dia 20 de agosto que essa angústia me cerca e me persegue mas também me é combustível pra andar por aí atras dela
Minha Bahia tá revirada, e eu quero ver quem é que tem coragem de dizer que eu não sou mulher suficiente pra enfrentar Major que for. E se eu não for, que corte a minha cabeça! Porque não há dor nenhuma no mundo maior do que a de perder uma filha.
Música: chapa todas cantam, pensar em uma movimentação.

Cintia: - Oh meu passarinho, eu sei que cê tá com medo mas não pode demonstrar, tá? Hoje não tá dando pra confiar em ninguém muito menos no governo e é por isso que a gente tem que ser forte. Ser forte duas vezes mais porque somos mulheres, viu? Suas irmãs estão todas lá, lutando. Vai. Vai também que sua mãe tá aqui esperando você.
Nilda! Nilda? Nilda minha filha? Nilda? Nilda? NILDA!!! NILDA!!!! MATARAM A MINHA FILHA, UMA CRIANÇA.

CAMILA no escuro - O major mandou avisar que se a senhora não se calar seremos obrigados a... (louca)- ASSASSINOS! A POLÍCIA MATOU A MINHA FILHA. (eles acabaram com ela) UMA CRIANÇA, ESTÃO MATANDO CRIANÇAS!!! ERA UMA ESTUDANTE, MINHA FILHA!


CENA 4
Projeção: Sangue

Camila ja está posicionada no meio do palco como boneca.
CAMILA:‘Olha aí a Miss Brasil. Pariu noutro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca’. Porque uma menina tão bonita como você foi se meter com essas coisas de comunismo.
IZABELLE: Um dia eu estava  usando um vestido longo com fendas nas duas coxas e ele me abordou, em sala, e disse: “sabia que é impossível não olhar para as suas pernas? Você tem que tomar cuidado ao usar uma roupa dessas daqui. Se você sair sozinha vai ser estuprada. Aliás, se usar essa roupa em outros lugares você também será estuprada. Sabe como o mundo é né? Homem não respeita mulher…” “Cuidado! Você não sabe se um colega seu é de bem ou de mal. Você não sabe se seu professor é de bem ou de mal”.
CAMILA: Ele ficou olhando um momento e fechou o vestido. Me virou de costas, me debruçou em cima da mesa, me segurou o pescoço e os braços e começaram os beliscões nas nádegas, nas costas, com o vestido levantado. Eu chorava, gritava, e eles riam muito, gritavam palavrões. Só pararam quando viram o sangue escorrer nas minhas pernas. Era os 40 dias do parto!
TAINÁ:Sabe, preta... Eu sei que você já se sentiu bem quando alguém disse "ah, mas você nem é tão negra assim!"
Sabe, preta... Eu sei que você já achou que não combinava com seu cabelo natural
Sabe, preta... Eu sei que você já fingiu que seus amigos não eram racistas com você
Sabe, preta... Eu sei que você já se sentiu menos atraente pela sua cor e o seu cabelo
Sabe, preta... Eu sei como manter a auto estima no alto é difícil quando tudo e todos te dizem o contrário
Mas sabe, preta... As coisas estão mudando pra nós.
CAMILA: Passaram-se alguns dias e subi de novo. Lá estava ele, esfregando as mãos como se me esperasse. Tirou meu vestido e novamente escondi os seios, o leite escorreu. Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar de louco. Esse foi o começo da pior parte. Passaram a ameaçar buscar meu fillho. ‘Vamos quebrar a perna’, dizia um. ‘Queimar com cigarro’, dizia outro.


CENA 5
Black Out! Experimentações com as lanternas
Todas Iluminam Tainá. E ficam em silêncio. .
10 segundos depois começam a cantar a música.
Projeção: Franjas de miçangas transparentes.
Música: Canto de Oxum
Meninas se levantam devagar, se percebendo, e começam a marchar

TAINÁ: Teve uma tortura que aconteceu na véspera do Sete de Setembro. Sei que foi esse dia porque eu escutava o ensaio das bandas. Me levaram para uma sala com acústica de madeira. Tocava uma música de enlouquuecer. Era um som como se estivessem arranhando a parede. A música foi aumentando cada vez mais. Quando eu saí de lá, minha cabeça estava latejando. Por pouco eu não enlouqueci. Todo dia eu ia para o interrogatório e as torturas eram de todas as formas e sempre nua. E eles ameaçavam as pessoas que a gente conhecia. Um dia me chamaram e eu vi o Paulo encapuzado. E eu só o reconheci por causa de um detalhe: o terno que ele estava usando, foi um presente meu pra ele. Os torturadores falavam muito das presas, ridicularizavam, gritando para você ouvir. Eram coisas libidinosas, como do tamanho da vagina de uma pessoa que eu conhecia. Uma vez, eles me chamaram para um interrogatório com um homem negro que diziam ser um psicólogo. Isso foi muito tocante para mim, porque é claro que chamaram um homem negro para eu me sentir identificada. Um dia, eles me chamaram no pátio e lá estava o satanás encarnado, o capitão Ubirajara, apoiado num carro e um outro ao lado dele em pé, e um bando de homens do outro lado. Ele me mandou tirar a roupa e naquela hora eu não sabia o que seria mais humilhante: eu tirar minha roupa pra eles ou deixar que eles viessem tirar. Preferi eu mesma tirar. E tirei. só que eu não perco a imagem daquele homem.
Ele me pôs para marchar na frente dele, nua, para lá e para cá, para lá e para cá durante um bom tempo. E os homens falando: Fala com indignação ‘Ô negra feia. Isso aí devia estar é no fogão. Negra horrorosa, com esse barrigão. Isso aí não serve nem para cozinhar. Isso aí não precisava nem comer com essa banhona, negra horrorosa’. Cansada mas ainda indignada.E eu tendo de marchar.  Todas as meninas param e olham pra ela, Tainá, arranca a coroa. Imagine só, rebaixar o ser humano a esse ponto… Sai do foco.
CENA 6
Projeção: Sem projeção
Depoimento Iza: - VOCÊ VAI PARIR ELETRICIDADE!!!!!!!!!! Isso foi o que ele disse pra mim, diante de varios homens que estavam ali somente para me assistir… Muitissimo obrigado!!! Olhos, ouvidos, lingua, nariz. O bico do meu saio. Vagina. VAGINA. E ele me tomou ali mesmo… Duro, seco, sofrido. Eles acabaram comigo....
CAMILA: fala no escuro enquanto izabelle fica só com o rosto iluminado enlouquecendo“Se você sair viva daqui o que não vai acontecer, pode me procurar no futuro. Eu sou o chefe, sou jesus cristo, e vai cantar na minha mão pq passarinhos mais velhos já cantaram e não vai ser você que vai ficar calada”.
IZABELLE: Isso ele dizia quando eu não gritava. Eu  sofria, chorava mas  nunca gritava. 3 meses foram suficientes pra acabar comigo. Aquele pássaro que antes era livre, leve e colorido se transformou nisso: um saco de ossos. Pálido, triste e sem vida. Naquele dia, dois soldados de Jesus foram me acordar. Eles me levaram para uma sala pequena e abafada, (tossir). Quando ele tirou minha venda, eu encontrei Iara morta do meu lado, estirada no chão. Ela era minha melhor amiga, irmã. Ele mandou eu tocar nela. Toquei. Ele mandou eu tocar sexualmente nela. Eu não toquei. Quando passei a mão por seu rosto e levantei a sua franja, o crânio dela tava afundado. Eles a mataram na coroa de cristo. A apertaram até morrer. Olhei de novo pra ela e vi que ela tinha uma mancha bem roxa no meio do peito. Eles me acabaram inteira.
Eu ia finalmente sair daquele lugar, minha mãe foi me buscar. Eu lembro que a delegacia tinha uma escadaria enorme, e quando fui embora, de repente eu não conseguia mais enxergar os degraus. Eu não via nenhum palmo a minha frente. Mãe? Mãe! Me ajuda mãe. Eu não vejo nada. Não enxergo nada! (Abraçando alguém da plateia).
Aí eles me levaram ao hospital. Queriam descobrir porque de repente eu tinha ficado cega. Nem eu sabia. Eles não descobriram também. Eu não via nada, só via aquele homem. Todo dia ele ainda ia no meu quarto me acordar e passar a mão no meu cabelo. Ninguém acreditava em mim!
Do hospital eles me levaram pra uma gaiola bem pior… Um manicômio. Me disseram que eu tinha ficado louca. Devia estar mesmo. E ai tudo piorou. A mancha roxa da Iara apareceu em mim. E aquilo me consumia. E Jesus queria me enforcar. Ele vinha toda noite tentar me matar. E eu fui ficando sem ar, sem ar. Até que um dia voei.

Corta projeção, corta luminárias, foco na Luíza

LUIZA: Quando eu acordei tinham 30 homens em cima de mim…
TODAS: Guerrilheira nada teme, ama a vida e despreza a morte.
MARTHA: Você já pensou, 30 homens em cima de você?
TODAS: Você já pensou, 30 homens em cima de você? - Se dispersando pela platéia
Martha chama as atrizes, com o sino, e todas sobem de volta, e começam a cantar

TODAS: Eu sou aquele cara que morreu
Ah, eu sou
Aquele cara que morreu
No seu lugar sou eu
Mais uma cara morta desprendida
Mais uma pela porta do tempo engolida
Mais uma cara morta desprendida
Bendita Louvada Seja
Bendita Louvada Seja


quarta-feira, 6 de julho de 2016

O Mito das Mulheres que Viravam Borboletas






         Qual a relação entre o machismo sofrido pelas torturadas na época da ditadura com o que vivemos hoje em dia? Foi dessa pergunta que surgiu nossa pesquisa, onde optamos por, dentro do tema de gênero -feminino, fazer um recorte de raça e classe, usando como linguagem a contação de histórias e o teatro performativo. Com atrizes se revezam entre personagens (mulheres torturadas na ditadura militar), e elas mesmas, as cenas acontecem de uma forma dramatúrgica não linear que apresentamos tal relação com fatos de 50 anos atrás e dos dias de hoje.